Numa pastelaria, perto de
casa. Bebo um café e como uma baguete aquecida com manteiga. Trouxe o livro A
mulher que prendeu a chuva, de Teolinda Gersão como companhia, como excelente
companhia. Entre o som da porta de vidro a bater com o temporal, a música vinda
do café e o manejar dos talheres lavados a serem arrumados, tenho a necessidade
de pegar nos tampões para os ouvidos que andam sempre comigo. Mas não foi
devido a nenhum destes sons que estavam mudos para mim durante a leitura, foi
porque comecei a ouvir, provavelmente de uma televisão ligada na cozinha, uma
espécie de discurso que tenta lavar o cérebro pelo tom de voz escolhido, a
forma de falar, parecia uma melodia hipnótica, que “Portugal é isto e aquilo”,
que “os portugueses merecem isto e aquilo”, e quem fala é um homem que promete
mudar e conseguir tudo, tudo. Percebi então que quem fala é o candidato não a
Presidente da República, mas o candidato ao poder. Foi aí que me lembrei de
colocar os tampões de ouvidos, porque me parece que ouvir discursos destes,
altamente manipuladores enquanto exercemos coisas das nossas vidas, nos
penetram no inconsciente sem autorização como larvas que lá se instalam e
multiplicam.
Gosto de rotinas, um dia por semana vou trabalhar para a biblioteca, noutro dia vou almoçar com o N. junto ao trabalho dele e, o resto dos dias, têm horários bem definidos, levanto-me às 5h30, almoço às 13h, janto às 19h e deito-me às 21H30. Há nas rotinas uma certeza de paz, de continuidade serena. Há apenas uma rotina que me atormenta apesar de ser alimentada por mim, não há uma manhã em que não acorde apreensiva, preocupada com alguma coisa sem nome, talvez com a fragilidade da vida, em vez de comemorar a própria vida no sentido mais amplo, a vida, a luz das manhãs, o beijo simples da vida sobre a própria pele. É esta a rotina de abertura ao dia que tenho de trazer para mim. Talvez comece amanhã e faça por me lembrar dela dia após dia até se tornar rotina. Colarei um post-it amarelo no espelho da casa de banho, parece-me um bom plano para uma nova rotina.
A imagem da baguete com manteiga e do temporal lá fora cria um refúgio perfeito, quase cinematográfico. É fascinante como um som mecânico (os talheres) pode ser inofensivo, enquanto uma voz manipuladora se torna uma invasão biológica. Proteger o inconsciente é, hoje em dia, um dos gestos mais revolucionários que podemos ter. Às vezes, o verdadeiro som da liberdade é o vácuo que escolhemos.
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