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Mensagens

Mau deitar

  Há quem tenha um mau acordar, há quem se queixe de viver com alguém que tem um mau acordar, eu assumo, reconheço que tenho um mau deitar. Como há crianças que começam a ficar birrentas a partir do final da tarde com o sono, eu começo a ficar irritada a partir das 19 horas quando percebo que as coisas não se vão encaminhar para estar a subir para o quarto pelas 21h15. Antes do jantar, já sonho com o momento em que estarei de pijama, a ter os cuidados com a pele, entrar na cama com a luz de leitura, ler algumas páginas do livro que estou a ler, colocar a venda, os tampões dos ouvidos para não acordar com a gata, desligar a luz e dormir. Acordo todos os dias pelas 5 horas, bem disposta e serena. Por vezes, o N. fica pela sala quando subo para dormir. Quando se junta a mim e calha de me acordar, talvez porque nesse momento esteja esteja na fase do sono Não-REM, resmungo com ele porque poderia perfeitamente ir para o quarto de hóspedes quando é assim. Na manhã seguinte, encontra-se ...
Mensagens recentes

Revisão do carro e outros assuntos

  Ontem, fui buscar o meu carro à revisão, o N. acompanhou-me. Estive muitos anos sem carro. Quando vivia no Porto não sentia necessidade de ter um, seria um luxo, algo dispensável para mim. Mas desde que vim morar para aqui, sem acesso ao metro, achei prudente ter um que satisfaça as minhas necessidades. O mecânico disse que teve de mudar todos os filtros e que o motor tem de ser lavado por baixo para perceber de onde vem uma fuga. Enfim, isto foi o que percebi no final de um discurso repleto de termos técnicos que me entravam por um ouvido e fugiam pelo outro a grande velocidade. No final, conversava sobre as melhores aquisições de carros neste momento e referia-se à carrinha da sua mulher assim: «a mulher gosta», «a mulher não o troca por nenhum outro». Pareceu-me algo rural, rude falar da sua própria mulher como «a mulher», mas depois, questionei-me se não será mais rude tratar alguém como «a minha mulher». Quando ouvimos ou dizemos «a minha mulher» ou «o meu homem» associamo...

Galinhas poedeiras

  Ontem, comprei uma dúzia de ovos, apenas. Digo apenas porque normalmente compro duas ou três caixas de 12 ovos cada uma, mas o preço a que estão a custar gritou. O N. disse que seria boa ideia termos galinhas poedeiras. Eu pensava que todas as galinhas põe ovos, mas parece que este tipo de galinha põe ovos com mais frequência e, por isso, em maior quantidade. Na casa dele não é possível, não tem espaço para isso. Na minha, poderiam perfeitamente andar galinhas soltas pelo jardim e até teria a sua graça. Perguntei pelo galo, «não será necessário um galo para terem ovos?». Afinal, normalmente há sempre um galo por galinheiro, pelo menos era esta a ideia que tinha. Estivemos a pesquisar e não, os galos não têm nada que ver com a produção de ovos, trata-se do ciclo de ovulação das galinhas, os galos são necessários para os fertilizar, um pouco parecido com a nossa espécie, portanto. Mas agora que o meu jardim está a ganhar forma, está a deixar de ser um terreno abandonado às ervas da...

Pessoas implicativas

  A chuva regressou hoje, uma chuva meiga que molha com suavidade, como se pedisse desculpa por chover. Tenho a terra do jardim toda revolvida, uma pequena máquina está abandonada num canto. Depois de dois dias de trabalho no jardim, a empresa de jardinagem avisou que ontem não poderia vir porque precisavam de acabar outra obra. Disseram regressar na segunda-feira, veremos. Tenho tempo, afinal é um trabalho fora de casa e não preciso de cá estar para que seja feito, nem interfere com as minhas rotinas. Não tenho pressa nem quero ser daquelas pessoas implicativas que nunca estão bem com nada, que procuram, provocam e encontram discussões por tudo, que estão sempre incomodadas com a vida. Não percebem, mas não é com os outros que se incomodam, estão apenas descontentes com a própria vida e fazem birra perante os outros, por qualquer coisa, em qualquer lugar. Eu tenho-me deixado levar pela vida, bem ou mal tenho-me deixado levar por ela, observo os outros, analiso o que sinto, constat...

Grupo de mulheres

  Uma vez por semana, passo a manhã num café de um casal francês, têm baguetes e croissants como eu gosto. Na manhã desta semana, quando lá cheguei, estava reunido um grupo grande de mulheres, noutra mesa estava um grupo mais pequeno de mulheres também. O grupo maior era essencialmente constituído por americanas — uma delas fazia anos nesse dia, cantaram-lhe os parabéns com uma vela acesa sobre uma fatia de bolo de chocolate —, brasileiras e italianas, falavam inglês entre elas. Conversavam alegremente, com sinceridade no olhar, gentileza entre elas, partilhavam ora coisas banais ora coisas mais profundas. O grupo mais pequeno, sentado numa mesa da esplanada, era constituído por três mulheres que tinham duas coisas óbvias em comum. Uma delas era o botox aplicado nos rostos o que fazia com que sendo tão diferentes entre elas se parecessem ao mesmo tempo. A outra coisa em comum era o telemóvel entre as mãos, a conversa era à volta da partilha de fotos e comentários de outros nas sua...

António Lobo Antunes

  Na Quinta-feira, acordei com uma notícia triste. Lobo Antunes faleceu. Ainda há três dias, o meu pai estava com um livro dele entre as mãos. Comentei que gostava muito daquele livro de contos. O meu pai refutou tratar-se de um livro de crónicas. «São crónicas? Para mim são contos», disse. «Mas são crónicas», respondeu-me. «São crónicas em forma de contos», não quis desistir da minha ideia. «Um e outro temos razão», acabei por afirmar. Depois, peguei no livro, e constatei ser de crónicas, mas a minha memória tinha-o guardado como se fosse um livro de contos. Quando um escritor faz parte das conversas de casa, é uma pessoa da família, da nossa família literária. Morreu uma pessoa da família, não sendo da nossa família, mas é reconfortante saber que o reencontro se dará na leitura dos seus livros, que continuará por casa como antes.

Primeiras páginas

  Na sexta-feira, escrevi o primeiro capítulo do meu novo livro. Depois de meses a refletir na nova ideia, de o novo romance se ir escrevendo sozinho no meu cérebro, e de, ao mesmo tempo, me esvaziar de tudo até desesperar com o ócio, na sexta-feira, acordei com uma urgência física de o começar a escrever. Depois de terminar o primeiro capítulo, senti-me absolutamente feliz, apesar de serem apenas as primeiras páginas de muitas, é como se tivesse dado apenas o primeiro passo para escalar o Evereste, mas para dar os seguintes passos o primeiro é sempre importante, e, só por isto, senti toda a felicidade. Isto só significa uma coisa, a partir de agora, o meu cérebro e o meu tempo estarão unicamente ao serviço do meu próximo romance, o motivo que me fará levantar da cama a todos os dias.