Voltando ao assunto que ficou por continuar há duas semanas, tenho constatado uma infantilidade em algumas pessoas com idade para terem juízo em relação aos próprios pais, falo de pessoas com mais de quarenta anos, ou até de pessoas com mais de 70 anos cujos pais, evidentemente, já cá não se encontram. Queixam-se, as suas memórias estão repletas de queixas. Cada um tem as suas queixas, das mais absurdas às mais traumáticas. Também já fui assim. De que me queixava? Dos meus pais me vestirem com roupas que eram do meu irmão Luís, quatro anos mais velho, até aos dez anos. Nos registos fotográficos, pareço um menino de cabelo comprido. Durante a semana, vestia a farda da escola, mas no resto do tempo vestia a roupa do meu irmão que de feminina não tinha nada. Sempre que olhava para estas fotografias, ficava incomodada, por vezes, zangada com os meus pais por uma coisa passada há três décadas. Agora, ignoro tranquilamente este absurdo. Outra coisa que me deixava até há pouco tempo magoada, foi a minha mãe ter tido o meu irmão Filipe apenas um ano após eu ter nascido. Que colo poderei ter tido no início da minha vida de uma mãe grávida e que teve um bebé logo a seguir, antes de ter completado dois anos sequer? Deve ter sido muito pouco, e essa ausência, esse vazio ficou gravado no meu peito. No entanto, agora que me posso dizer adulta emocionalmente, penso que as coisas são como são, pior foi com o meu irmão Luís que a partir dos quatro anos viu-se com a atenção da mãe reduzida a um terço, com sorte, mas teve o pai que era quase todo só para ele. Talvez o mais sortudo em relação à atenção da mãe, tenha sido o nosso irmão Henrique, nascido cinco anos após o Filipe. Esse teve todo o colo da mãe, por completo, e parece tê-lo até hoje. Mas o Henrique queixa-se da falta que teve do pai, que sempre passou mais tempo com o Luís e o Henrique, enfim, todos têm as suas queixas.
Depois, também ouço queixas vindas de pessoas cuja idade se pode arredondar para um século sobre os próprios pais, o desespero que ainda têm em encontrarem respostas sobre os seus comportamentos. Não há respostas, têm de aceitar que não têm de encontrar respostas porque essa vida não é a deles, foi a de outros. O meu pai queixa-se por ter sido criado por uma tia quando os pais passaram por dificuldades financeiras e que essa tia o obrigava a fazer a cama e a arrumar o quarto quando tinha empregada em casa, afirma que o fazia para o constranger à sua situação da altura. Este género de queixas, para mim, não fazem qualquer sentido, parecem vindas de alguém preguiçoso e desarrumado. Outro exemplo, a mãe do N. não entende por que a própria mãe era tão agressiva, por que lhe batia em pequena, por que a fechava num quarto escuro, e ainda hoje sofre com isso. Apetece-me dizer-lhe que provavelmente a sua mãe era maluca, uma desequilibrada, e que teve a pouca sorte de ter calhado ser sua filha, uma questão de probabilidade da qual não teve qualquer culpa.
As queixas que me chegam, ora mais tontas, ora mais complexas, são vindas de pessoas privilegiadas que não sabem o que são verdadeiros traumas. Também poderia continuar a chorar e a sofrer com as minhas próprias queixas, mas fartei-me disso, foi uma decisão que tomei para mim, deixar de pensar, de sofrer com coisas que me fugiram do alcance, com coisas que não foram decisões minhas, com coisas que tendo tido reflexo direto na minha vida pertencem, na verdade, à vida de outras pessoas. É tudo relativo. Decidi crescer. Não quero dizer que quando estou com a minha mãe e o meu irmão Filipe ao mesmo tempo não sinta uma espécie de dor, de ciúmes talvez, mas já não deixo que me atinja, reparo no que sinto e deixo passar, aceito ter-me sido roubado todo o colo em bebé. Esta frase parece tão infantil, mas foi o que aconteceu, foi o que a circunstância da vida da minha mãe naquela altura provocou, e, como se costuma dizer, é a vida, e a vida continua, não podemos ficar lá atrás.
Mas estas são as críticas
que fazemos aos outros, também há as críticas que nos fazem a nós, que surgem
do seio da própria família e estas, como se sabe, são as que têm mais poder de
nos afetar. Lembrei-me agora do último fim de semana em que estive em casa dos
meus pais e do meu pai ter comentado, depois de ter ido com ele fazer uma
pequena compra à mercearia lá perto, que não deveria ter chamado à atenção a
uma mulher que se colocou à nossa frente na fila para pagar, que fui rude,
desagradável. Disse-me aquilo como se ainda fosse uma criança. Não respondi,
raramente respondo a comentários destes vindos do meu pai. Também há algumas
semanas, num almoço de família, uma tia comentou, sobre um artigo que escrevi
para um jornal, que não deveria partilhar de forma tão íntima os meus
pensamentos. Olhei para ela espantada. São dois exemplos de pessoas que ainda
não perceberam que o papel delas como meus educadores já se extinguiu há
décadas, e que agora comentários deste género são sentidos como falta de
respeito, mas, no entanto, prevalece o complexo de superioridade deles em
relação a mim, algo que só reparei há pouco. Neste momento, vejo as coisas de
forma clara, a maturidade traz clareza. Cada um deve ocupar o seu próprio
lugar. Não sinto os meus pais e tios como pais e tios, sinto-os como adultos
exteriores a mim, não são o meu prolongamento, nem eu sou prolongamento deles.
Não estou em dívida com nada, dei-lhes o melhor de mim, dou-lhes o melhor de
mim, e tiveram-me nas suas vidas porque assim o desejaram; não me devem nada também,
fizeram o melhor que sabiam com as ferramentas que tinham; não lhes cobro nada
a não ser respeito e consideração; que não me cobrem nada também a não ser o
mesmo, respeito e consideração, amizade sincera. Esta foi uma das grandes
descobertas que fiz ao entrar na vida emocionalmente adulta, tratar e ser
tratada por igual, sem títulos, categorias patriarcais, matriarcais, sem
género, sem idade, de igual para igual, com os mesmos direitos de respeito e
consideração. Mas isto é uma coisa que se tem perdido a nível da sociedade em
geral, e este assunto ficará para o texto de amanhã.
Nota: estarei por aqui aos sábados e domingos.
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