Por falar em larvas (no último texto), há uma coisa que me espanta desde que iniciei esta fase tardia
da vida adulta, a vida adulta no sentido de amadurecimento emocional. Aliás, as
descobertas têm sido várias. Por onde começar? Vou começar por aquela que me
fez iniciar este texto. Sempre me considerei uma pessoa tímida e insegura, mas,
analisando os meus comportamentos, nada confirma a minha timidez e insegurança,
pelo contrário. Lembro-me dos trabalhos que apresentava na escola, a filosofia,
por exemplo, sozinha “ no quadro”, como se dizia, será que ainda se usa a
expressão “vem até ao quadro”? Nesses momentos, não era nada tímida, nunca fui
tímida nas situações que me entusiasmavam e causavam interesse. No entanto, por
que acreditava ser tímida? Porque acreditei ser tímida até muito tarde? Porque sempre
ouvi dizer, desde pequena, de algum adulto, que era uma criança tímida, porque
talvez não me apetecesse falar com estranhos e isso teria de ser justificado,
essa falta de delicadeza que se espera e exige das crianças. Em relação à
insegurança, posso concluir que fui exatamente o oposto, apesar de ter tido
momentos de grande incerteza na vida, mas viver é mesmo isso, não ter todas as
certezas. Posso dar um exemplo, quando ainda não tinha completado o ensino
secundário tive uma professora de História que me dava, em todos os testes, a
nota 13. Quando eu conferia a correção do teste, levantava-me, no final da
aula, para ir ter com ela e mostrar-lhe que não tinha cotado uma ou duas
perguntas. Ela nem olhava, virava o teste, riscava o 13 e escrevia 14 ou 15
valores, ao calhas. Depois do segundo teste com esta professora, fui à secretaria
da escola e anulei a disciplina, a nota de História seria a da prova global
que, na altura, se fazia a nível nacional. Na aula seguinte, avisei a
professora de que apesar de ter anulado a sua disciplina continuaria a
frequentar as suas aulas. Na altura, aquela professora com enorme verruga
encostada a uma das abas da narina disse-me: “Amélia, que perigo confiares a
nota num único exame, vais-te arrepender”. Tirei 17 valores no exame, não me
arrependi, deu-me ainda mais força para continuar a acreditar naquilo que
considero o que é certo, a acreditar em mim. Depois disto, muitos outros
exemplos se seguiram, mas continuei a acreditar sempre que era uma pessoa
tímida e insegura, era uma certeza gravada numa espécie de cartão de cidadão da
minha personalidade. Porquê? Porque sempre ouvi “olha que te vais arrepender”, “não
faças isso”, “cala-te”, “isso não se diz”. A crítica dos outros sempre
presente, como vespas. As críticas alheias e como se lida com elas na vida
adulta, outra descoberta que fiz, mas deixo este assunto para o próximo texto.
Nota: aos sábados e
domingos estarei por aqui.
É precisamente assim que se descobre a liberdade: quando percebemos que as etiquetas que nos colaram na infância eram apenas mapas errados de um território que só nós conhecemos. Às vezes, passamos a vida a acreditar no "ruído das vespas" e esquecemo-nos de que a nossa voz — aquela que nos leva a anular uma disciplina por princípio — é a única bússola que importa. Um belo texto sobre o deslumbre de nos vermos, finalmente, sem filtros.
ResponderEliminarBoa tarde, Daniel! Obrigada pelo comentário.
ResponderEliminar