Ontem, fui buscar o meu
carro à revisão, o N. acompanhou-me. Estive muitos anos sem carro. Quando vivia
no Porto não sentia necessidade de ter um, seria um luxo, algo dispensável para
mim. Mas desde que vim morar para aqui, sem acesso ao metro, achei prudente ter
um que satisfaça as minhas necessidades.
O mecânico disse que teve
de mudar todos os filtros e que o motor tem de ser lavado por baixo para
perceber de onde vem uma fuga. Enfim, isto foi o que percebi no final de um
discurso repleto de termos técnicos que me entravam por um ouvido e fugiam pelo
outro a grande velocidade. No final, conversava sobre as melhores aquisições de
carros neste momento e referia-se à carrinha da sua mulher assim: «a mulher
gosta», «a mulher não o troca por nenhum outro». Pareceu-me algo rural, rude falar
da sua própria mulher como «a mulher», mas depois, questionei-me se não será
mais rude tratar alguém como «a minha mulher». Quando ouvimos ou dizemos «a
minha mulher» ou «o meu homem» associamos a um tratamento carinhoso, e a maior
parte das vezes será, mas não estará incutido também um sentimento de posse, de
aquisição que muitas vezes se confunde com amor? É difícil encontrar esta
diferença, entrelaçam-se. Talvez tenha sido por isso que nunca me quis casar,
como saber se se gosta de alguém ou se o que se gosta é de ter esse alguém como
seu? Gosto do N. por ele, não por o sentir como meu, mas também gosto de o ter
como só meu, então vejo-o como meu mesmo sem estarmos casados, e é a clássica
questão da pescadinha de rabo na boca.
Esta gramática do afeto é traiçoeira. Quando digo "a minha mulher", não sinto que possuo um objeto, mas que celebro uma sorte. Vejo "minha mulher" como uma distinção e não como uma aquisição. É um possessivo de pertença mútua e, acima de tudo, de orgulho. É o orgulho de saber que, entre tantas direções possíveis, os nossos caminhos se cruzaram. Porque no final do dia, a maior liberdade dela foi precisamente ter-me escolhido a mim.
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